No mundo das letras é necessário que por vezes as organizemos em frases... Se elas terão algum sentido ou objetivo isso é outra questão... Sejam todos bem vindos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

mal entendido


A pior e mais patética de todas as tragédias no que diz respeito às relações humanas, talvez seja mesmo o mal entendido, quando são abalados os pilares da ponte em função do que não se pôde compreender. De coisa mal entendida, sai comida mal digerida, tiro no ouvido, porta batida ou mesmo um pescoço torcido. Mas talvez, como fica explícito num simples passar de olhos sobre as palavrinhas que se juntaram, o caso foi mesmo mal entendido... Não se entenderam. Cada um pensou em si. Só. E ao que me compete, quando não entendemos ou não somos entendidos, é porque não conhecemos. Simples. Não existe, no fundo de cada interesse, certo ou errado, bem ou mal, existem os olhos nos olhos. Assim como, no raso, existem os olhos desviados por medo de entender, logo, não existe o mal entendido... Existe o não entendido, o não conversado, o não explicado e a ânsia de ser compreendido mesmo sem estar exposto e disposto o suficiente para ser engolido. Mas essa é uma carência generalizada e encrostada no simples fato de ser gente afim de ser amada. Eu entendo, mas não incentivo a incompreensão dos que não fazem a menor questão de entender que a vida é de longe, uma sobreposição de pequenas coisas incompreensíveis... Logo, na bifurcação a frente, cada um que pegue suas cores e dores e siga o seu caminho de certezas e caprichos, para que continuem entendendo de coisa nenhuma e assim não se darão ao luxo do sofrimento pelo desentendimento.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

meu secreto voto



Eu definitivamente não entendo nada de política e graças a um dos mais sábios ensinamentos de meu pai, que dizia que não devemos nos envolver com isso, não pretendo mesmo entender nada de política e por isso não farei aqui campanha para nenhum candidato ou partido, apenas darei testemunho de que critérios uso para escolher em quem voto. Acho que de qualquer maneira que se exerça o poder, quando o assunto é governar dentro de uma democracia capitalista e em desenvolvimento como o Brasil, a tendência é mesmo se perder antes que se passem quatro anos, afinal, gente propensa a escorregar, somos todos. Talvez seja mesmo dificil se preocupar com o outro e com quem precisa, quando existe um mundo de interesses te exigindo um naco da carcaça. Então, meu principal critério é ver e ouvir a pessoa falando... Filtrar os recursos técnicos, os discursos prontos e tentar chegar na pessoa, no que dizem os olhos, na intenção... Nunca votei em quem fala mal de outro candidato. Nem em quem se altera com quaisquer pergunta que lhe façam. Não voto em quem se defende, mas em quem se desculpa. Não voto em quem parece forte, mas em quem se expressa simples, e sobretudo transparente. Os melhores governantes que tive na minha vida, foram sempre os mais mansos, do berço à grande empresa. Foram com os de respiração controlada e dicção tranquila que mais aprendi e menos sofri. Vou votar em quem, como eu, acredito, não moveria uma formiga desorientada de sua rota para chegar onde precisa. Posso estar errado sim, mas se estiver certo, quem esteve errando nesses ultimos anos, não fui eu. Bom voto cidadão.

salvem as diferenças


Aí tem aqueles que levam tudo a sério demais, que não entendem piadas, que não aceitam metáforas, doces de qualquer um ou estranhos no facebook; têm relógio no pulso, fio dental na bolsa do lado da escova de dentes e o creme dental em miniatura. Viajam em julho, tiram fotos de tudo quanto podem e depois organizam numa pasta por data para mostrar para os amigos no primeiro domingo depois da volta ao trabalho. Seus lençóis são muito limpos e só se desarrumam uma vez por semana, geralmente as quartas pois, não por acaso, eles não gostam da desordem do futebol. Tem filhos antes dos quarenta, mas depois dos trinta e cinco, que é pra dar tempo de organizar as finanças. Usam loção antes e pós barba, lavam sempre as mãos antes das refeições e de maneira nenhuma as tampas de suas margarinas caem viradas para o chão, pois eles só as abrem quando já estão sentados à mesa toda posta. Não riem ou choram de qualquer coisa pois até a espontaneidade em suas vidas, tem hora marcada para acontecer... Eu, por sorte ou azar, só os conheço assim, na imaginação... E sem compromisso com o tempo fico aqui imaginando como eles, os compromissados com a seriedade, dissertariam sobre mim... "O artista é um curioso ser sem regras ou limites, sem pedras nem rinite que come a hora que bem entende ou pode. Chora por qualquer coisa, ri pra qualquer um e se dá por meia bala halls preta cortada com os dentes postiços do desconhecido. Estão sempre viajando deitados em seus tapetes e pufs mas nunca fotografam nada, pois não caberia em seus arquivos. Segunda feira é o dia que descansam dos amigos, depois de tanta vã filosofia consumida em taças e mais taças de idéias. Tem filhos a qualquer momento, geralmente de susto e seus lençóis quase nunca são encontrados no quarto, pois vão enrolados neles preparar o dia. Suas margarinas não tem tampa que é pra não atrapalhar a demanda de brigadeiro quando bate a carência ou uma tal larica, como dizem. São tão malucos e espontâneos que é difícil de explicar, por isso as vezes pagamos para vê-los se esparramando em algum palco ou exposição. Nós, por azar, nem podemos imaginar..." Aí eu paro e penso... Que prato oriental eu vou criar com os três escalopes de mignon, que pedi ontem pro garçom embrulhar as duas da manhã, e enfim fazer o meu desjejum de sábado? Sobretudo, viva a diferença...

sobre quem assiste...


Quando vou a um espetáculo, seja ele de que seguimento for, tenha ele os artistas que tiver, raramente, não só por trabalhar com isso, me emociono sinceramente com o que vejo no palco. O que realmente me emociona e serve como termômetro do calor que eu deveria sentir é a reação de quem assiste. Muitas vezes, quando estou em cartaz, driblo as coxias, os bastidores, os fios espalhados e vou para trás de alguma cortina ou porta entreaberta assistir quem está me assistindo. O riso, a lágrima, o susto, a emoção livre no escurinho da platéia são, hoje, o meu verdadeiro prazer de trabalhar com o que faço. Quando estou criando, seja interpretando ou escrevendo, eu penso sempre em quem vai assistir. Quando escolho uma peruca, uma voz, um corpo, é principalmente no espectador que estou pensando. Não faço nada além do que me obriga a profissão e sua ética aos meus colegas, ao diretor, ou a quem me contrata. Não faço nem para mim mesmo. Já fiz, e surtia na platéia o que surte em mim hoje quando assisto algo feito com o que considero segundas intenções... Nada. Porque, embora seja fácil de perceber, quando somos vistos e estamos expostos sob a luz e olhos sedentos, dificilmente enxergamos além do palco e, dependendo da vaidade, preferimos ficar em nós mesmos, negligenciando quem é fundamental para que existamos enquanto possíveis transformadores de alguma realidade. Teorias, críticas ou técnicas eu deixo para quem tecnicamente não tem estrutura ou prazer de ouvir o que pulsa na escuridão das platéias...