Através do espelho percebemos refletida, bem a nossa frente, a imagem de alguém que não somos nós. Através do espelho percebemos refletida no aço a imagem de alguém que parece muito conosco, mas que não somos nós. A imagem projetada no espelho nada mais é senão uma projeção do que gostaríamos de ser... Uma sobrancelha levantada, um olhar confiante e um sorriso ensaiado fazem surgir do outro lado desse mesmo espelho o herói que espelhamos ou o ideal que refletimos. Somos refletidos pelo espelho ou somos nós que o refletimos? Penso que o espelho é uma representação física do que é nossa capacidade de refletir o que está a nossa volta. Afinal se para cada situação nos cobramos uma reflexão e para cada complexo exibimos um reflexo, acho prudente cobrirmos hoje os espelhos para falarmos um pouco sobre personagens. Reflitamos... Cada um de nós é um emaranhado de valores, instintos e sentimentos enjaulados dentro de um corpo feito para expressar com moderação essa turbulenta mistura de imagens e sons que vamos coletando durante a vida. O tratamento que dispendemos às pessoas varia de acordo com uma porção de fatores pessoais, morais ou sociais. Traduzindo, cada ação gera uma reação que não necessariamente condiz com aquilo que realmente somos ou gostaríamos de ser. Criamos personagens para tudo e para todos e isso é estar no ato. Isso é ser ator de sua própria novela. Os melhores personagens são obviamente aqueles com os quais nos identificamos ou admiramos e que de preferência estejam sendo interpretados por bons atores. Também existem os personagens de vida própria, que cabem a qualquer ator. Mas para mim, os mais fascinantes são os personagens autorais, ou seja, aqueles que são de propriedade exclusiva do ator que as representa. Personagens que emprestaram tanto de seus atores que fica impossível de imaginar outro ator lhes representando. Citemos na ficção Odete Roitman de Beatriz Segall, Vó Manuela de Fernanda Montenegro, Viúva Porcina de Regina Duarte e Perpétua de Joana Fomm. No mundo real temos Fidel Castro de Fidel Alejandro Castro Ruz, Papa João Paulo II de Karol Józef Wojtyla e Michael Jackson de Michael Joseph Jackson. Em alguma casa normal podemos citar A Moralista de Mamãe, O Machista de Papai, A Desfrutável de Minha Cunhada ou O Palhaço do Meu Primo. Claro que nenhum ator é insubstituível e nenhum desses personagens é ou foi necessariamente um único personagem através do espelho. Como já disse aqui, as reações vem de ações e os personagens brotam das ocasiões... Finalizemos? Se para cada situação nos cobramos uma reflexão e para cada complexo exibimos um reflexo não é crime nenhum vivermos atuando. O crime talvez esteja em levar o personagem pra casa e deixá-lo ser protagonista absoluto de nossa história. Afinal, se todos nós temos espelho em casa é hora de descobri-los e refletirmos sobre qual personagem reflete melhor a nossa imagem.
No mundo das letras é necessário que por vezes as organizemos em frases... Se elas terão algum sentido ou objetivo isso é outra questão... Sejam todos bem vindos.
sexta-feira, 4 de março de 2011
história pra boi acordar 2
Em nosso último encontro aqui, terminei escrevendo que durante muito tempo o som e a imagem vindos da televisão fizeram do inconsciente coletivo uma cabeça só. Rimos pelos mesmos motivos, choramos com as mesmas músicas, sentimos as mesmas mortes e compramos os mesmos produtos. E que um dia, depois de muito tempo sentimos que a comunicação tinha se tornado mera informação. Verdade? Claro que não. As pessoas continuavam se comunicando mesmo com tantas imagens na televisão. Em menor escala é verdade, mas ainda trocavam um “sim” ou um “não” quando surgia uma questão: “Mãe, posso assistir Malhação?”. “Sim!”. “E Corujão, pai?”. “Ainda não!”. Íamos dormir inconformados sem entender a proibição, já que não tínhamos sono e sim fome de informação. Ou seja, a questão se resumia ao fato de que uma coisa tinha se tornado mais interessante que a outra simplesmente por que nos parecia mais confortável assistir uma profusão de luzes que trocar uma porção de idéias. E assim fomos crescendo e nos deixando educar e condicionar pela possibilidade que nos era oferecida de acompanhar o mundo sentados confortavelmente em nossas poltronas. Sofremos... Nosso sofrimento, em minha opinião, surgiu exatamente da falta de diálogo com a amiga televisão. A tudo assistíamos, mastigávamos e deglutíamos, mas a nada respondíamos. Claro que nem tudo é difícil de engolir como a um sapo gordo, mas se bem nos conheço – e só por isso estamos escrevendo e lendo esse texto – toda boca que se deixa engolir demais é por que tem sede de vomitar. Muito confuso? Eu explico: A comunicação se faz pela troca de informações, quem muito ouve, hora ou outra quer falar, mesmo que ainda sentado em sua poltrona. Vocês me dirão como boi acordando: Hummm. Eis que surge o computador. A princípio tímido, com funções secretas e distantes da nossa inteligência emocional. Para tornar-se meio de comunicação faltava-lhe sangue correndo nas veias... Surgimos então com a uma rede mundial de computadores instantaneamente ligados e espalhados por todo o mundo, chamada Internet, que nos possibilitou ver e mostrar, ouvir e falar, ler e escrever. Hoje em dia se não gostamos da edição fazemos reclamação, se não curtimos a imagem clicamos outro botão, se a televisão fala demais, “cala a boca Galvão!”. Vencemos? Não há competição no que diz respeito a nós mesmos. Estamos sozinhos no universo até que alguns homenzinhos verdes que não sacam nada de comunicação interplanetária pousem na Terra e digam o contrário. Enquanto eles não chegam, essa falta de comparativo fará mesmo com que esqueçamos de que tudo que criamos está aqui em função de nossas necessidades e/ou interesses, basta que saibamos distinguir entre o que queremos e quem realmente somos. (...) “Tô” pegando pesado, não é? Ui, preciso ver mais novela...
história pra boi acordar
Era uma vez um monte de gente perdida num mundo bem grande e cheio de perigos e problemas pra enfrentar. Como nasciam pelados precisavam o mais rápido possível achar soluções para questões simples que com o tempo foram ficando complicadas e assim seguiram evoluindo. Descobriram que se adaptavam fácil por que trocavam figurinhas entre si. Contavam uns aos outros sobre suas experiências e conquistas. Coisas de gente perdida que busca respostas pra tudo. Adoravam falar e trocar informações, tanto, mas tanto que deram a esse fenômeno o nome de comunicação. Inventaram línguas, letras, pontos e vírgulas, puseram tudo em seqüencia e deram às frases significados que não cabiam nas cabeças. Escreveram o preto no branco e saíram comunicando o quanto podiam. Leram muito, leram tudo e assim as idéias eram passadas de olhos a olhos através das folhas dos jornais. Mas ainda era pouco, muito se lia, pouco se ouvia, era uma ou outra letra que não se entendia, era um tom ou um timbre que não se sabia e inventaram assim um aparelho que emitia som. Então um dia, um gaiato chamado Orson disse a revelia que o mundo se perderia invadido por marcianos. Todo mundo acreditou, arrepiou, gritou, e saiu correndo. Foi tanta correria, pânico e gritaria que esse foi o dia em que todos pararam e perceberam que o rádio a muitos atingia. Todo mundo queria, um ou outro não ouvia, mas de uma coisa estavam certos, daquilo muito se lucraria. Surgiram então os anunciantes, que em pouco tempo sentiram necessidade de mais. Ouvir era pouco, falar era bom, mas se o ouvido era mouco, não bastava o som. Por essas alturas a comunicação ainda existia, mas não estava mais na ordem do dia, pois o que prevalecia era o interesse comercial e toda sua histeria e se o som não correspondia às necessidades da freguesia era preciso que se criasse algo que até então em canto nenhum se via. A coisa ia, ia, ia e nada se resolvia, até pensarem que muito se venderia se aos olhos agradassem e assim surgiu a televisão. Tinha som, tinha imagem, tinha movimento e vendagem, mas isso não bastaria para aquele que a assistia, pois cada qual era um só e tinha seus próprios interesses. Emprestou-se então as músicas das orquestras, os atores dos teatros e as cores das telas coloridas, para que todos os desejos fossem realizados e todos os olhos forem agraciados com o vai e vem de luzes. Mas muitas coisas caberiam ainda dentro daquela caixinha mágica para que dela fosse feito o mais poderoso meio de comunicação. Acrescentou-se idéias, sonhos, sorrisos, lágrimas e uma pitada de realidade, que continuaria sendo fragmentada a cada dez minutos por um ou outro reclame publicitário. Foi um sucesso, e durante muito tempo o som e a imagem fizeram do inconsciente coletivo uma cabeça só. Rimos pelos mesmos motivos, choramos com as mesmas músicas, sentimos as mesmas mortes e compramos os mesmos produtos. Mas esse mesmo monte de gente perdida a procura de respostas, um dia, depois de muito tempo sentiu que a comunicação tinha se tornado mera informação. (Continua...) Aguardemos...
etnocentrismo
Calma... Não é preciso medo, pânico ou correria. O palavrão acima será prontamente destrinchado para que não haja dúvidas de que a minha intenção é propor reflexão e não xingar ninguém. Claro que não falarei de nenhuma novidade, pois é fato que nesse mundo tudo já foi estudado, escrito e catalogado, se não por mim, ou por vocês, por algum daqueles carinhas de óculos que criam coisas e ficam ricos. Mas no caso dessa palavra grande não precisaremos ir muito além. Destrinchemos... Para quem ainda não sabe - e não se preocupem pois quase ninguém sabe - o radical "etno" deriva da palavra grega ethos e designa povo, raça ou nação. Centro é centro mesmo e "ismo" sempre tende a ser algo que merece estudo por causar polêmica, digamos assim. Juntando tudo, colocamos o nosso povo, a raça ou a nação no centro de tudo e somamos algo a ser estudado. Organizando o raciocínio,significará, a grosso modo, olhar o próprio umbigo, considerar que ali, naquele buraquinho, encontra-se o centro do universo e definir que tudo que não gira em torno dele é diferente de nós e portanto está errado. Exemplifiquemos? Neste momento, estou numa lan house em Copacabana por que deixei os fios que ligam o meu computador, na casa de uma amiga. Aqui, do meu lado, tem um estrangeiro que não pára de rir alto e tossir sem por a mão na boca. Eu, esquisito que sou, dificilmente rio de alguma coisa e prefiro tossir em casa. Logo, poderia classificá-lo como um “gringo” mal educado e porcalhão, se não estivesse disposto a avaliar bem as diferenças e me colocar no lugar dele. Avaliemos... A lan house é pequena, cheia de gente, carpet de fora a fora, ar condicionado e nenhuma janela. Só um minuto, também preciso tossir! Cof, cof, cof! Pronto. O fato dele não colocar a mão na boca pode se dever ao fato dele estar teclando afoito, muito provavelmente com algum ente querido e distante, e talvez desse encontro saudoso venha a alegria que justifica as risadas altas. Ou seja, querendo, podemos ser queridos e compreensivos uns com os outros sem antes pensar mal da mãe que educou o vizinho. Claro que eu justifiquei da minha maneira o que julgava errado no colega aqui do lado. Mais a fundo justificaria por uma grande diferença de cultura e valores e blá blá blá. Mas esse não é para ser um papo tão profundo assim, então resumindo,etnocentrismo é a dificuldade de pensar a diferença, de ver o mundo com os olhos dos outros; é ter como base a sua cultura, os seus valores e os seus padrões para classificar de maneira preconceituosa o modo de viver do outro. Pronto, falei... Finalizemos? Não importa cor, credo, sexo, roupa, jeito de andar ou de cuspir. Em nenhum momento é necessário que nos corrompamos para permitir que o outro exista, simplesmente por que não precisamos aceitar ou apoiar a diferença, apenas respeitá-la, esteja ela em que contexto estiver. Respeitemos!
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